Entrevista: Aske


Metal Extremo é uma vertente que é, sem dúvida, ou você ama ou odeia, porém tem bandas que conseguem atravessar essa dicotomia e fazem com que todo mundo que admire música de qualidade acabe sendo atraído pelo som, o Aske entra nessa proposta com uma estreia fantástica que atende pelo nome de “Once” e o EP “Broken Vow” que levam adiante essa sonoridade, faz com que tenhamos uma grande admiração por esse duo, então confira nossa entrevista exclusiva: 



1) O Aske atualmente é um formato Duo que recruta músicos para apresentações ao vivo, estou certo? O que motivou a vocês para assumirem esse formato e quais praticidades que encontraram nessa decisão?

Filipe Salvini: Creio que a necessidade: em todos estes anos, desde 2009, fomos oficialmente um duo e dois guerreiros era o suficiente para gravar e produzir nossa música; em 2015 decidimos começar a fazer shows, então precisávamos de uma formação. Como neste momento estamos criando um disco de estúdio, voltaremos com uma formação quando decidirmos voltar a fazer shows.

Vejo algumas vantagens em sermos dois: precisamos extrair o máximo de nossa capacidade criativa para fazer algo bom; pensar como pensariam quatro ou cinco compondo juntos e isso nos obriga a ser mais autocríticos e a nos conhecer melhor. Nossos ensaios acabam se tornando reuniões e a troca de ideias nos faz entender melhor o que o outro está pensando e isso acaba se refletindo nas composições, pois elas soam sinceras para nós; não são apenas composição, cada letra escrita e cada riff de guitarra carrega muito do que estamos sentindo naquele momento. Através da música crescemos enquanto pessoas.

2) Uma das dificuldades de resenhar um trabalho do Aske é a amplitude de estilos por onde a sonoridade de vocês caminha, sendo mais fácil definir como Metal Extremo, essa necessidade de rótulos é, porém, um mal necessário, como vocês definiriam a sonoridade do Aske?

Filipe: Eu gosto de Black Metal, é o estilo que mais me preenche. Sempre ouvi que o Jazz é o estilo musical mais livre que existe, mas é assim que me sinto quando ouço bandas de Black Metal. O Lucas, que é o grande responsável pelas guitarras, tem também suas influências sonoras e admiro muito do resultado que temos com o choque destas diferenças. Este novo disco mostrará ainda mais isso.

3) O EP “Broken Vow” teve uma ótima recepção por parte da mídia sendo o EP um trabalho que mostra o que está por vir. Podemos pegar ele como parâmetro para o próximo trabalho?

Filipe: Com certeza! Havia composições que não entraram no EP “Broken Vow” que estarão no disco além do que continuamos compondo posteriormente. Temos 4 dessas composições no EP (sem contar a última faixa “Übermensch”, do nosso primeiro disco “Once...”, que apresenta nosso ex-vocalista na formação) e neste disco teremos 10 músicas que apenas continuam o que fizemos no EP “Broken Vow”. 



4) Aske vem de cinzas em norueguês e também batiza um álbum do Burzum, vocês tinham em mente fazer essa homenagem ao trabalho do Varg?

Filipe: Não, antes de 2009 éramos uma banda de garagem. A nível de curiosidade, chamávamos Unholy Forces mas, quando comecei a apresentar as primeiras composições para os outros músicos, a formação se desmanchou então decidimos mudar o nome da banda para iniciar algo novo, como um duo remanescente desta banda. Como estávamos recomeçando, o nome “Cinzas” encaixou como uma luva então começamos a pesquisar esta palavra em idiomas diferentes para ver em qual ficaria mais legal. Foi aí que descobrimos esta incrível coincidência, então decidimos que usaríamos neste idioma por já ser um termo conhecido entre os ouvintes desta música. Sempre tive uma paixão por idiomas e isso me agregou pois descobri que o ‘-e’ da palavra Aske é marcação de plural, como o nosso ‘-s’ em “Cinzas”.

5) Tendo formado a banda em 2009, temos uma década de Aske. Quais foram os momentos que mais inspiraram vocês ao longo dessa década, e como é manter uma banda antirreligiosa em um país tão regido por dogmas religiosos como o Brasil?

Filipe: Por sermos um duo, nestes 10 anos pude desfrutar de certas vantagens que uma banda comum dificilmente desfrutaria e listarei 2 destas vantagens: nos meses de composição gosto de estar recluso e retomar a formação para fazer shows depois que o trabalho estiver pronto e lançado; enquanto componho, tenho o privilégio de contar apenas com as pessoas que realmente agregam na criação das músicas e normalmente são elas: Lucas Duarte (guitarrista do Aske), Eugenio Stefane (produtor do 1979 Estúdio, que é onde gravamos nossas músicas) e Paulo Roberto (ex-vocalista e fundador do Aske, que, mesmo não estando mais na banda, é meu amigo pessoal).

O Brasil tem, sim, seus problemas e conflitos religiosos e morais causados pelo cristianismo, onde cada vertente desta crença se julga a dona da verdade e todo o resto é errado, mas, se analisarmos a religiosidade do nosso país, somos um leque em constante expansão onde nem sempre conseguiremos delimitar onde começa e termina cada religião. Temos crenças de matriz africana dialogando com europeias e a presença das filosofias orientais influenciando todas elas. Temos também religiões criadas em nosso próprio solo onde há a miscigenação das crenças trazidas pelos imigrantes. O Aske se opõe a Moral, não a liberdade de Crença religiosa, e cada vez que a Moral religiosa se sente confrontada, vemos que estamos no caminho certo.

6) Indo mais a fundo nas letras, qual a importância de Friedrich Nietzsche para as composições da banda?

Filipe: Algumas ideias apresentadas na obra de F. Nietzsche possuem extrema relevância para nós pois a forma como ele cultua a vida e nos apresenta formas de se elevar, enquanto ser humano (como suas ideias apresentadas na obra “Assim Falou Zaratustra”, por exemplo), dão um verdadeiro baile nas formas de conduta ofertadas pelas religiões monoteístas que temos em vigor no mundo pois Nietzsche nos faz refletir sobre nós mesmos enquanto tais religiões monoteístas faz você, em grande maioria, viver de aparências enquanto seus atos não condizem com o que você prega. Herdamos o asco a moral religiosa tanto esbravejado pelo filósofo.

7) Falando um pouco de “Once...” acho ele um grande trabalho de Metal extremo, como foi o processo de gravação do mesmo e a recepção por parte do público?
Filipe: Nesta época o duo contava comigo no baixo e Paulo Roberto nos vocais. Compusemos o disco entre 2009 e 2011 e foram nossas primeiras composições. Considero este disco como uma escola pois ouvíamos bandas como Deicide, Six Feet Under e Gorgoroth e falávamos “Será que conseguimos fazer isso também?” e, voltando para o que comentávamos anteriormente sobre as vantagens de se trabalhar em duo, pudemos nos dedicar 100% em compor, experimentar, replicar o riffs que nos faziam pirar! Paralelamente, o Lucas também teve suas experiências em outras bandas e compunha suas músicas. Agora, com nosso duo contanto comigo no vocal/baixo e ele nas guitarras, podemos reunir tudo o que aprendemos nestes 10 anos, cada um trazendo o melhor de sua jornada – o EP “Broken Vow” e este disco vindouro estarão aí para comprovar minha fala.


8) Acredito que depois de dois trabalhos muito bem recebidos pelo público cria-se uma apreensão para um próximo trabalho. O que pode nos adiantar sobre um novo lançamento do Aske?

Filipe: Este disco será, sem sombra de dúvidas, a continuação do que iniciamos no EP “Broken Vow”: teremos música pesada e extrema como fizemos em “Menschwerdung”; aprimoramos o groove que criamos na “Mardi Gras”; as linhas melódicas da “Meadows In Shade” e a pegada oitentista do cover “Broken Vows” também estarão presentes. Letras em português também estarão neste repertório pois, como mencionei, amo idiomas e escrever é uma paixão pessoal.

9) O pesado ano de 2019 está se encerrando, existe alguma programação da banda para ainda esse ano, e aproveitando o espaço sendo uma banda do Underground como vocês avaliam o cenário musical no Brasil podemos falar de cena Extrema?

Filipe: Nossa programação é iniciar as gravações do nosso futuro disco. Estamos terminando de lapidar as composições. Reuniremos a formação novamente ano que vem.
O Brasil é um solo extremamente fértil quando se diz respeito a formação de bandas. Temos fests em todo lugar e creio que não exista cidade aqui que não tenha uma banda formada.

10 ) Muito obrigado pela entrevista, tenham certeza que foi uma grande honra para nossa equipe do Underground Extremo! Gostariam de deixar algum recado para nossos leitores?
Filipe: Não fugirei dos agradecimentos tradicionais devido a importância destas pessoas para o Aske: Patrick Sousa, Aline Pavan e Sangue Frio Produções; Eugenio Stefane e 1979 Estúdio; Paulo Roberto, ex vocalista, fundador do Aske e nosso amigo pessoal; familiares, amigos e toda galera que gosta da música que fazemos; a toda equipe do Underground Extremo pelo espaço. Meu muito obrigado a todos!

Aos que estão insatisfeitos: Toca algum instrumento? Monte uma banda e componha músicas em gratidão às bandas que te proporcionam a música que tanto gosta. Não toca? Crie um portal para falar sobre as bandas de que você gosta. Não toca nada e não gosta de escrever matérias? Use camisetas com os logos e ensurdeça o seu vizinho no volume mais alto que puder.

Cada vez que reclamamos que “a cena musical está uma merda” é porque não estamos fazendo nada por ela. Preservar viva a música que tanto nos é querida só depende de nós, não dos outros.



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