Entrevista Psychotic Eyes: A arte de romper paradigmas



Já se fazem 4 anos que entrevistei a banda Psychotic Eyes pela última vez. Nesse passar do tempo muita coisa mudou, acabei criando o Underground Extremo e sempre esperei a honra de ter uma das melhores hordas de Death metal nacional aqui no blog. Então é com misto de satisfação e honra que segue essa entrevista:

Hail PsychoticEyes. Tive a honra de entrevistá-los há algum tempo para o site Road To Metal. Bem, aqui estamos novamente, sendo que o U.E é um projeto pessoal, uma volta as origens resgatando o verdadeiro sentido do Underground, queria aproveitar essa abordagem para iniciar nosso diálogo... Em todos esses tempo de banda o que significa para vocês o Underground e a banda alguma vez almejou o mainstream?

Dimitri Brandi - Saudações Harley! É sempre um prazer te responder, entendo exatamente a sua dedicação pessoal, é a mesma que me faz tocar o PsychoticEyes depois de tantos anos. A última vez que nos falamos foi em 2012, nesse meio tempo tudo mudou pro PsychoticEyes e, na minha opinião, para o cenário metal no Brasil e no mundo. Eu cada vez entendo menos o underground, as coisas hoje são muito diferentes para nós que começamos numa época em que tudo era difícil mas havia um sentimento de união e companheirismo que não visualizo mais. Hoje é mais fácil gravar um disco e lançar sua música nas redes sociais e na internet, então fica mais fácil de divulgar e de atingir o público. A contrapartida é que o público ficou mais exigente. O que não entendo, de verdade, é que o espaço de shows de bandas autorais parece que está cada vez mais diminuto. São poucos os que frequentam os eventos underground. Mas, pior do que isso, criou-se uma barreira intransponível entre o underground e o mainstream. Não tem mais bandas de abertura! Antes era impensável um evento internacional não ter uma banda brasileira abrindo. Hoje, eu nem lembro mais qual foi a última vez que vi uma banda de abertura num evento. Se você quiser ver uma banda underground, tem que ir num local underground num show underground só com bandas underground. Estranho isso, não? É como se fossem estilos diferentes, quando não são. Não existe “metal mainstream” e “metal underground”, deveria ser tudo a mesma coisa. Na Europa não é assim, nos grandes festivais europeus tem um monte de bandas desconhecidas de várias partes do mundo, às vezes até brasileiras. Mas aqui não. Essa questão fica ainda mais complicada, pois hoje é impossível uma banda underground atingir o mainstream. Quem ainda sonha com isso é muito ingênuo ou maluco. Até porque não existe mais essa de “virar mainstream”. As bandas de sucesso no metal de hoje são exatamente as mesmas há vinte anos. A porta fechou.




Na biografia de vocês tem uma parte que é dito o seguinte:“o Death Metal é a aquarela em preto e branco mais completa para transformar em arte todos os “predicados” da sociedade contemporânea: medo, terror, guerra, corrupção, desigualdade, fome, indiferença, niilismo, doença, destruição e morte” creio que essa informação difere a PE das outras hordas que existem na cena, quais seriam as concepções filosóficas da banda em si alguns autores em especial ou a própria realidade inerente, serve de plano de fundo para inspiração em compor Death Metal?

Dimitri - Boa pergunta! Eu sempre refleti bastante sobre a sociedade e aprecio quando a música transforma em arte as nossas inquietações sobre a humanidade, sobre o futuro do mundo. Não necessariamente estou falando de política, embora a política e a economia sejam dois dos aspectos mais importantes relacionados às doenças mentais do mundo, das neuroses coletivas e da falta de perspectiva que atinge toda a sociedade. A banda não tem concepções filosóficas únicas, eu e o Douglas temos várias divergências, embora também concordemos em muita coisa. Eu gosto muito de ler sobre história, economia e psicanálise. Meus autores filósofos favoritos são Karl Marx, Voltaire, Bertrand Russell, Rosa Luxemburg, Erich Fromm, Richard Feynmann e Louis Althusser, sobre quem estou trabalhando num projeto ambicioso, que ainda não posso revelar todos os detalhes porque ainda estão no projeto. Mas ele teve uma vida bem “death metal”, podemos dizer assim. Foi prisioneiro de guerra, professor universitário e desenvolveu uma psicose que o levou a assassinar a própria esposa. Depois disso, ficou dez anos sem pronunciar uma única palavra. É esse tipo de neurose que gosto de trabalhar nas letras e me faz refletir sobre o que a humanidade está fazendo consigo e com o mundo. Creio que muito vem dos maiores males que o capitalismo produziu: o individualismo, o consumismo, a destruição do meio ambiente e a transformação de tudo em mercadoria, inclusive dos valores humanos, que hoje podem ser comprados.



Para quem não conhece a horda, ela se formou em 1999 e vem ai na batalha. Poderia nos informar um breve histórico da banda e como se formou essa sonoridade que transita não apenas pelo Death mas como elementos progressivos e até acústicos ?

Dimitri - A história da banda é realmente uma batalha, cheia de altos e baixos. A primeira formação se conheceu por causa de um anúncio na revista Rock Brigade. Procurávamos todos nós tocar sons extremos, baseados nas bandas que gostávamos e mais ouvíamos na época. Essa formação gravou duas demos, uma delas que nunca foi lançada, porque a banda se desfez em seguida. Foi também a formação que mais fez shows. Depois da volta, encontramos muito mais dificuldades, mas conseguimos gravar o primeiro álbum em 2005. O segundo foi nossa obra prima, “I only smile behind the mask”, que vc resenhou de maneira tão positiva, serei eternamente grato e orgulhoso que nosso trabalho te agradou. Mas esse disco não foi lançado fisicamente, só é possível ouvi-lo em lançamento digital pelas plataformas de streaming. Também não fizemos uma turnê decente desse disco, os shows foram apenas em São Paulo e em Belo Horizonte. Nunca realizamos uma tour pelos outros estados do Brasil, meu sonho, nem tocamos no exterior.

Em 2007 nasce o primeiro álbum auto intitulado, sendo que nesse decimo aniversario existem planos de executar esse álbum na integra em algum show? E se fosse possível mudaria alguma coisa nesse trabalho?

Dimitri - Não sei se mudaria alguma coisa, nunca tinha pensado nisso. Para ser tocado hoje ele precisaria ser adaptado, pois na época da gravação tínhamos duas guitarras e já há muito tempo que o PsychoticEyes se estabilizou como um trio, com uma guitarra só. Eu sinto que o disco poderia ter outra mixagem, mas não tenho do que reclamar do trabalho do Alex Nasser, ele foi brilhante arrancando o melhor de nós. Às vezes também não dá pro produtor fazer milagre. Mas gosto muito do disco, ele tem uma sonoridade bem característica da época e é cheio de detalhes. Não é tão progressivo quanto o trabalho seguinte, está mais puxado pro thrash e pro heavy tradicional.



Quatro anos depois temos I Only Smile Behind The Mask, um álbum que, para mim, é um divisor de águas na cena por ser dinâmico, complexo e muito bonito, por mais antagônico que isso seja de dizer de um álbum de Death Metal. Para quem não conhece tal trabalho, ele esta disponível para download no site da banda. Se fosse para apresentar uma música desse trabalho para conhecer o trabalho da PE, quais vocês definiriam?

Dimitri - A minha preferida é a “The Girl”, não canso de ouvi-la. Ela tem uma das melhores linhas de baixo que já ouvi numa banda brasileira, tem meu melhor solo de guitarra, a melhor letra que já escrevi e, sinceramente, o que o Alexandre tocou na bateria dessa música não é deste mundo. Ele conta a história com a bateria. Passa cada emoção da personagem principal só na percussão, nem precisava da melodia das guitarras. Também acho que nessa música os riffs de guitarra sintetizam todas as minhas influências de doom, hard rock e rock progressivo, tudo adaptado ao death metal.

Como um apaixonado pelo formato físico, ainda espero o lançamento de I Only Smile Behind The Mask, mesmo sabendo que esse é um mercado cada vez menor, existe alguma chance real disso ocorrer seja em cd ou até mesmo vinil ?

Dimitri - Eu adoraria que isso acontecesse! Mas serei bem sincero: não vou gastar dinheiro prensando um disco que não vai vender e vai ficar encalhado na minha casa. Seria ótimo se houvesse no Brasil aquele esquema da Amazon de impressão sob demanda, em que vc só prensa o disco depois dele ser vendido. Mas isso não chegou aqui, nem acho que vai chegar, ninguém mais compra CDs no nosso país.

Entre todas as surpresas que a audição da sonoridade do PE nos apresenta, a faixa “ Life” é marcante pelo fato de ser uma quase balada, seria ela a porta de entrada para o projeto acústico executado anos depois?

Dimitri - Sim! A ideia do acústico surgiu exatamente porque eu vi que era possível tocar a “Life” num violão. Ela foi composta na guitarra, mas o seu formato de balada clássica (dedilhado limpo e refrão pesado) combinou com a sonoridade acústica. Quando decidimos fazer a apresentação no formato acústico, porque estávamos sem baterista, ela era a principal candidata. E uma versão dela 100% acústica já foi gravada para o disco que estamos gravando nesse formato, que será o primeiro disco acústico de death metal ou metal extremo da história.


Como citei na pergunta anterior, em setembro foi executado o primeiro show acústico de Death Metal da historia, conte nos um pouco como foi a execução do mesmo, acredito que a sintonia entre a dupla que executou o show Dimitri Brandi e Douglas Gatuso deve ter sido crucial para o desenvolvimento de tal projeto.

Dimitri - Foi essencial. Sem o Douglas eu jamais teria conseguido. Estávamos numa sintonia musical afinada, depois de muito tempo tocando só nós dois. O violão dele me deu o conforto necessário para soltar os berros guturais sem precisar me preocupar tanto com a execução dos riffs, que é o que mais me atrapalha quando toco no formato elétrico. Sempre me inspirei nos guitarristas que cantam, como Chuck Schuldiner, Dave Mustaine, Gary Moore, mas esse negócio não é brincadeira, ainda mais quando você é o único guitarrista da banda.

“Olhos Vermelhos” será o novo trabalho da PE, que ira explorar esse lado acústico. Como anda esse projeto? Poderia nos indicar mais informações do mesmo e quase perspectivas de tão audacioso projeto?

Dimitri - Já finalizamos a gravação mas ainda não a mixagem. É difícil, porque não estamos acostumados a mixar nada sem distorção nem bateria. É uma arte delicada, em que não pode haver exageros mas também não podemos tirar a agressividade que caracteriza o death metal. Serão cinco músicas, duas inéditas e três versões de nossos trabalhos anteriores. A surpresa é que as duas inéditas tem letras em português, cortesia do poeta e amigo Luiz Carlos Barata Chichetto, que escreveu dois poemas primorosos, “Memento Mori” e “Olhos Vermelhos”, que vai dar nome ao disco.

Mais uma vez obrigado Psychotic Eyes, estamos todos ansiosos para o novo lançamento. Gostaria de deixar alguma mensagem para os leitores do Underground Extremo?

Dimitri - Sempre sou grato ao seu trabalho, meu caro, parabéns pelo esforço, dedicação e amor que você demonstra pelo underground extremo, se houvesse mais gente com o seu profissionalismo nossa cena seria outra, seria a melhor e maior do mundo! Aos leitores dessa entrevista, também agradeço pelo interesse e por apreciarem a música extrema feita no Brasil, vocês são o mais importante. Não me importa o mainstream, se minha música alegrar o dia de alguém que não conheço, esse é o maior presente e a maior retribuição que um músico pode receber.

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