Cobertura de Eventos #64: SC Winter Metal Fest - Gaspar/SC (15/08)

Salve, headbangers. É sempre encorajador poder ir assistir a um festival que está na sua primeira edição. Isso porque existe um grande abismo entre a palavra e o verbo. Ou seja, assim como nós já tivemos (e teremos em breve) as experiências de fazer um festival, fomos presenciar o SC Metal Winter, e o resultado foi deveras positivo, mantendo uma renovação sadia do cenário no nosso estado.

O cast contou com dez bandas de mais variados estilos, com destaque para o metal extremo. O local também é aquele típico galpão comunitário que, acredito, pela primeira vez estava recebendo um evento de metal, o que deu um contraste muito legal para a atmosfera que sempre encontramos em eventos como esse.

Com o horário dentro do previsto, entrou em palco a banda de Death/Thrash Alkila, uma banda que já possui uma trajetória dentro do metal na região sul do estado, formada em 2001, sendo uma daquelas bandas que a gente acompanha cada passo e fica feliz com o aumento do reconhecimento merecido. Em 2024, eles passaram por uma reformulação na sua linha de frente, e a entrada do vocalista Eric trouxe para a banda um toque maior de agressividade, tanto em sons que fazem parte do seu EP Ashes of This World, como a faixa título e Madness, quanto no mais recente single Scorched Land e em sons que ainda não ganharam sua versão em estúdio, como Church of Ignorance. Uma ótima abertura para o fest. Eu, na verdade, acredito que a banda poderia estar até mais à frente no fest, mas, devido à energia que entregaram, abriram o fest muito bem.

FONTE: Instagram SC Winter Metal Fest

Na sequência, a banda Inpurge. Acredito que chegaremos no momento em que uma banda 100% feminina não seja algo que mereça destaque, pois se tornará rotineiro. Porém, ainda não temos isso com frequência, então vou destacar o fato de um time de musicistas de Floripa vir trabalhando no seu primeiro full, e até agora tivemos uma demonstração do que está por vir com o som Helpless Hate. Sendo o primeiro show fora da capital, a banda mostrou sons que estarão no seu debut. A guitarra estava um pouco baixa, o que prejudicou um pouco conhecer esses sons, mas quero destacar os vocais de Larissa, que conseguem sair do mais gritado (que estamos acostumados a ouvir no álbum) assim como mais guturais, à medida que a música pede. Percebi um acento de Thrash Metal também, o que pode ser um caminho que a banda vá explorar.

Outra banda que a gente acompanha desde a sua formação é a Deadnation, que aproveitou o festival para apresentar sua nova formação, contando nas guitarras com Luiz Quaresma!!! Natural de Altamira, Pará, Luiz é fundador da banda Sádico Infesto e trouxe toda a sua bagagem musical para o Chainsaw Death Metal. Ou, para quem não conhece, um Death Metal que bebe da escola sueca. Os caras idolatram Dismember, mas não deixam de colocar sua sonoridade e seu potencial em sons como Braindead, Redrum (duas das mais clássicas), além de Burned Alive (quem nunca quis queimar um filho da puta, não é mesmo?) e Pierced by the Nails.
FONTE: Instagram SC Winter Metal Fest

Eu já assisti algumas apresentações do Rise Behavior, mas confesso que essa foi uma das que eu mais gostei. Claro que é chover no molhado dizer as habilidades e características da banda como um todo, porém nesse dia em especial a banda estava tão coesa que só de olhar um para o outro já sabiam que música seria executada. E, claro, concentrados como o som pede, mas ao mesmo tempo interagindo demais com o público. Meu destaque vai para sons como Raging Seas, com seu andamento perfeito para bater cabeça, Machinery of Chaos e os singles mais recentes When Darkness Approach — e não se engane pelo seu começo mais dedilhado, pois ela vai vindo numa crescente — é incrível. E, como falei, um dos melhores shows do festival, na minha opinião.

O ambiente foi ficando mais carregado para a entrada do Lacrima Mortis. Formada em Blumenau em 2026, a banda sempre soube criar um Doom Metal atmosférico pesado e denso, muito denso. Eu nunca tinha conseguido assistir a banda ao vivo, e por isso minha expectativa era enorme, e foi mais que correspondida. Inicialmente pela postura no palco: a banda já deixa clara a mensagem, afinal nada mais são que sombras escuras tomando o palco. E essa carga visual é sobreposta por uma carga sonora, intercalando sons do seu trabalho Posthumous assim como seus novos sons, como The Sexuality of Bereavement, Cathedral of Despair, alguns sons que não podem ficar de fora dos seus próximos sets, como ...of Desolation.

Aproveitando todo o clima lúgubre e sorumbático que estava ali formado, temos adentrado nos palcos a Volkmort, uma banda que consegue, como poucos, fazer um cheiro de enxofre tomar o ambiente. Faixas como Returning to the Bloody Field, Battle Desolation e Triumphus Mortis são realmente aquelas que você tem que assistir ao vivo. A banda domina o ambiente, seja com a neblina de gelo seco tomando o ambiente, mas também pela presença de palco, principalmente de Dunkel Traum, que incorpora um mensageiro da morte e transmite isso por meio das suas vociferações e teatralização no palco, fazendo dele um frontman muito acima da média.

Apresentando uma nova formação e uma nova fase na sua jornada, a Voorish tomou o palco do SC Metal Winter com a disposição de mostrar que os percalços não foram suficientes para balançar a sua vontade. Aproveitando o clima mórbido apresentado pela Volkmort, o Voorish demonstrou um Black Metal tradicional, com doses certas de melodia. A nova formação mostra um entrosamento muito nítido, com destaque para a bateria, que assume aqui um grande protagonismo no som, com levadas extremamente rápidas e ríspidas. Méritos para W.A.G., músico conhecido por passar por grandes nomes da cena catarinense como o Somberland. No set, meus destaques vão para o single já lançado Black Crows e Dark Ages, que, assim como na sua gravação, contou com a participação de William Bernardo, da Deadnation.

Tudo pronto para os headliners do festival, o Hellight. Sendo uma banda que eu acompanho há muito tempo, confesso que, sem nenhuma parcialidade jornalística, eu estava muito a fim de ver a banda, e valeu muito a pena cada quilometragem percorrida para o festival, porque eu consegui concluir uma opinião que eu tinha de um show do Hellight: ele é muito bonito, emotivo, introspectivo e belo. Parece estranho falar isso de uma banda de Funeral Doom, mas quem conhece sabe que apenas os três elementos entram no palco e conseguem transmitir sua persona sorumbática, dando um destaque para o álbum We, the Dead, como as faixas Desperate Cry e As Daylight Fades. Esta, como foi anunciado pelo frontman, conta com a participação de Heike Langhans, porém, infelizmente, ela não estava ali. Mas não é difícil entender o porquê da escolha para representar esse som ao vivo, pois ela se posta muito bem ao lado de clássicos como Dead Moment. Mais que um show, foi um mergulho lúgubre na tristeza em forma de música, e eu acho incrível bandas que conseguem transmitir essa atmosfera para a audiência.

Bandas como o Darkken me fazem crer muito naquela questão de uma renovação da cena. Por mais que seja formada por músicos relativamente novos, eles apresentam um som com bastante maturidade, algo que bebe das escolas do Death Metal mais old school nos vocais, mas com influências mais latentes do Death Metal melódico por parte do instrumental. Essa mistura soa muito bem nas mãos certas. No caso deles, isso ocorre demais, e meus destaques vão para Metaphysics e Candlelight.

FONTE: Instagram SC Winter Metal Fest

Para encerrar o festival, temos um baluarte do Black Metal quando falamos na cena catarinense. Aqui fica até um adendo para os bangers: parem de apoiar essas bandas de TikTok que pulam de treta em treta para se manter e apoiem os nomes verdadeiros, como o caso do The Torment. Imperius Nokturno é uma verdadeira entidade dentro do nosso cenário, e aí sons como At War, Jesus Christ Quartered e The Infernal Black Night provam isso: um Black Metal fiel à escola escandinava, mas com aquela aura de metal feito no Brasil, ou seja, o ódio que emana de viver às margens da exploração e do caos.
FONTE: Instagram SC Winter Metal Fest

Ao final, um festival que estreou com pompas e méritos de profissional. E é impossível não destacar que estivemos também no Sombras do Sul, e essa ascensão de novos festivais só mostra que estamos vivendo um momento de renovação de uma cena, aliando novos eventos com os consagrados. E quem ganha com isso? Bem, bandas, público (esse poderia ser maior) e o underground como um todo.