Resenha # 488: "Vyraj" - Dymna Lotva



Salve, headbangers. Eu não sou um dos maiores fãs de redes sociais, e nem preciso dizer o que penso de banda que se forma lá e é péssima ao vivo, não é mesmo? Porém, foi graças a essas redes que tive meu primeiro contato com o Dymna Lotva. Depois, acompanhei os lançamentos da banda e até mesmo a acusação de extremismo que eles sofreram do governo Lukashenko, até chegarmos ao quarto trabalho. Aquele famoso divisor de águas de uma banda: o abandono de algumas passagens, abraçando outras. Enfim, um álbum que vai te desafiar a mergulhar na dor. Falarei dele nas linhas adiante.

O motivo de eu afirmar que esse álbum é uma transição se deve ao fato de que as passagens do DSBM que estavam muito vivas na banda foram se apagando para um Post-Black Metal. Sem problemas, pois eu gosto dos dois estilos, mas confesso que queria que o DSBM ainda fosse uma parte mais vivida do DNA da banda. A transição, porém, se define no conceito do que iremos ouvir ao longo do álbum.

Uma mostra do crescimento da banda são as participações especiais que figuram no álbum. Nomes conhecidos da cena europeia se unem a Katsiaryna "Nokt Aeon" Mankevich (vocais e flautas tradicionais), Jauhien Charkasau (guitarras, baixo e teclados), Mikita Stankevich (também nas guitarras) e Wojciech "Bocian" Muchowicz (bateria). Se o conceito lírico sempre foi um diferencial para a banda, confesso que ainda preciso de mais audições e leitura para compreender o macrocosmo de uma "etnoastronomia bielorrussa". Nas lendas eslavas, o céu estrelado está associado tanto à vida após a morte quanto às viagens, o que faz sentido ao pensar que hoje a banda se encontra na Polônia. Ser refugiada de sua terra para expressar sua arte sem sombra de dúvida é uma dor que marca a alma, e esse trabalho carrega isso.
"Zory" tem a sonoridade folk presente desde os primórdios, mas aqui os ares eletrônicos já ganham mais força, algo que vai ser uma tônica desse trabalho. É arriscado, mas colocado da forma correta, vitorioso. Não demora para Katsiaryna começar a entoar um mix de sentimentos com sua voz: hora assustadora, outra uma fera enjaulada. Ela, sem dúvida, é uma das melhores vocalistas da geração atual. Esse som foi assertivo em abrir o trabalho, pois dá uma amostragem do que está adiante.

Até o momento, "Vieha" é uma das minhas faixas favoritas. Teria começado o álbum com ela. Se for definir esse som, a melhor palavra seria hipnótica. O uso de harpas deixa essa sonoridade mais sombria, algo que os vocais infantis amarram nessa atmosfera.

Agora vem aquela que merece um parágrafo especial. Confesso que as primeiras audições de "The Boat of Despair" me causaram estranhamento. Não pelo casamento mais que perfeito dos vocais de Aaron Stainthorpe (High Parasite, My Dying Bride) colidindo com Katsiaryna, mas pelo instrumental, que achei que poderia ser mais épico. Depois entendi que o objetivo era exatamente esse: deixar que as vozes sejam o destaque maior. Aqui temos uma valsa dos exumados.

"Viedźmierahina" é um aceno ao passado, mostrando que eles não abandonaram seu estilo, só incorporaram novos elementos que são hoje o caminho que a arte quer os levar. Por isso que a passagem folk de "Budź Samoje" e as atmosféricas de "Niama Darohi" são peças desse quebra-cabeça.

O ato final vem com "Return My Coffin Home", uma amálgama de tudo que ouvimos até aqui. Conta com os vocais de Ingvarr, da banda ucraniana Schreigarm. Temos aqui a dor representada em forma de se desprender de sua terra, de sua origem. Uma montanha-russa que vai para um mergulho introspectivo de sentimentos. Isso que a arte nos pede, e o Dymna Lotva nos entrega.

INTEGRANTES:
Katsiaryna "Nokt Aeon" Mankevich – vocais, flautas tradicionais;
Jauhien Charkasau – guitarras, baixo, teclados;
Mikita Stankevich – guitarras, vocais de apoio;
Wojciech "Bocian" Muchowicz – bateria.

MÚSICOS CONVIDADOS:
Aaron Stainthorpe – vocais em The Boat of Despair;
Ingvarr – vocais em Return My Coffin Home;
Déhà – baixo fretless em Return My Coffin Home;
Deanna F. – harpa em Vieha;
Andrii "Deicider" Sovgar – vocais de apoio em Budź Samoje;
Miraslava Palynskaya e Jan Palynski – vocais infantis em Vieha;
Velzevul – vocais de apoio e efeitos sonoros em Return My Coffin Home;
Andrii "Deicider" Sovgar, Jan Mačuĺski, Aliaksandr Čarnuha, Jauhien e Mikita – Coral Balbuta em Budź Samoje.
Track List 
1. Zory
2. Veha
3. The Boat of Despair
4. Viedźmieragina
5. Niama Darohi
6. Bu Samoje
7. Ustań Za Mianie
8. Return my Coffin Home