Cobertura de eventos #63: Sombras do Sul - Pomerode/SC (18/07/26)

Salve headbangers! Acredito que para iniciar essa cobertura preciso apontar, antes de mais nada, o que define a verdadeira vontade: aquela que é a que nos guia para atingir nossos objetivos. E, sem dúvida alguma, a vontade de fazer um evento que já na sua estreia marcaria o cenário da cena extrema catarinense estava à frente dos produtores do "Sombras do Sul".
Muito antes do festival em si, a divulgação massiva, a escolha do cast e também a forte marca visual criada para a celebração, deixou bem claro que tudo poderia dar certo. E, já adiante, os resultados foram deveras positivos; e sobre esses aspectos apresento nas próximas linhas.
A localização do Manga Bar de frente à SC na cidade de Pomerode facilitou a nossa chegada e, sem atraso, nos encontramos adentrando o palco (um pouco pequeno, mas totalmente compreensível, já que o espaço ali era bem amplo e existe uma vontade por parte da organização de um futuro fest open air) a banda Oculto.
Formada no ano de 1996, é curioso que eu não tinha conseguido vê-los ao vivo, pois lembro da sua demo intitulada 666 ter uma boa repercussão na época do lançamento. Porém, contando agora com a formação composta por: T. Curwen nas guitarras e vocais, Sacrilegio na bateria e São Samael no baixo, o formato power trio me soa muito interessante na proposta de som que fazem, algo mais voltado para as raízes do estilo, um raw black metal com destaque para os vocais que são agressivos, ao mesmo tempo sendo possível identificar todas as profanações emanadas em sons como Noite Soturna e aquela que fica na nossa memória desde a sua primeira audição, Em Aço, Fogo e Sangue. Para mim, foi gratificante assistir a Oculto e não pensaria em uma banda melhor para ter a honra de abrir o "Sombras".
Na sequência, o black metal sinfônico da Meroth, acredito que foi outro acerto pontual: abrir as portas para bandas que estão começando, fugindo daquele caminho de fazer um festival sempre com as mesmas bandas. E, para uma banda que está no começo da sua jornada, oportunidades como essas são bem valiosas!
E com isso em mente, a banda fez uma apresentação que chamou muita atenção, primeiramente pelo estilo: um black metal que tem passagens góticas e as camadas de teclado deixam isso tudo mais atmosférico e lírico. Só que aí vem o grande diferencial: os vocais, que poderiam seguir um caminho mais operísticos, mas, para minha surpresa e alívio, fazem justamente o contrário. Com uma intro que serve para criar o ambiente que a banda deseja, logo temos os sons autorais, com meu destaque para Devil Small Island e Tales of Witches. Acredito que é a música que sintetiza melhor a sonoridade que eles almejam, que me remeteu desde a nomes como Opera IX, Anorexia Nervosa e o Orcus (Argélia).
Agora, é sempre uma grande honra assistir a uma apresentação da Luciferiano. Eu considero um dos maiores nomes do metal negro catarinense desde o lançamento da lendária demo auto intitulada, e do álbum "A Face do Cão", que completa 20 anos agora em 2026. Seu nome ficou marcado para os fãs de black metal, e isso se mantém no seu mais recente registro "Hipocrisia Angustiosa", lançado em 2024.
A forma como a sonoridade passa por passagens do mais heavy para a base de temas que são poesias obscuras, entoadas pelos vocais certeiros de Willian Puchalski, no set tantas faixas novas como a que batiza o novo álbum, como os clássicos A Face do Cão, A Glória de Gabriel Guerreiro de Mim e, para encerrar a vitoriosa passagem, Voluptuosa Rainha dos Meus Sonhos.
Falando ainda em lendas, o que a gente assistiu no "Sombras do Sul" foi um reencontro histórico, pois a Alocer se fazia presente. E confesso que já assisti algumas apresentações da banda, mas essa foi, sem dúvida, uma das mais especiais, primeiramente pela formação atual que se mostra muito entrosada. Shemramforash mantém o nome Alocer como um verdadeiro guardião da profecia, e sempre nos impressiona a presença de L Scarlet, que é uma frontwoman que une o carisma fora do palco com uma verdadeira possessão ao subir nos palcos.
E aqui quero citar um momento muito interessante como fã, pois ela dividiu os vocais com ninguém menos que Zasvanna, a primeira vocalista da Alocer, e com a qual Scarlet afirmou uma representação feminina dentro do black metal e que foi uma inspiração direta para ela começar a cantar. Estávamos vendo ali uma celebração a um pilar da música extrema, um daqueles momentos que ficam marcados.
Um dos grandes objetivos do "Sombras do Sul" é rememorar os tempos que a nossa região era um celeiro maldito de bandas, e isso se fez presente com mais um nome histórico nos palcos: o Accubitorium, formada no ano de 1998, tendo uma sonoridade que intercala entre um black metal mais áspero a outras passagens mais arrastadas que flertam com os momentos mais densos do estilo, e isso vindo com letras em português que sempre foi um diferencial. E isso se prova ainda mais ao vivo com faixas como: Orgias Funebrárias, Corredor da Morte e Sangrando em uma Estaca.
Escolhendo as sombras para um dos seus primeiros ritos, o paganismo retorna do abismo com a Purnima. E tivemos na verdade um set curto, mas tão certeiro, que desde a primeira passagem estávamos envoltos de um cântico; uma aura absurda tomou conta do lugar. Meu destaque são os vocais de Zasvanna, afiados como uma navalha e nos jogando pragas com seus cânticos.
Retornando às terras do Sul, o Spiritual Hate é um dos representantes do blackned death metal. E se pode parecer estranho uma banda de death metal no festival, é porque você não conhece a Spiritual Hate, pois o ódio que eles emanam no palco é algo que deixaria Glen Benton de joelhos rezando.
Faixas como Malvm Perpetvm, Awaiting Fucking Jesus (a minha favorita) e Behind the Lies of God mostram todo o poderio da banda, que está para lançar um álbum novo e escolheu o "Sombras" para mostrar essa nova artilharia na face do maldito nazareno.
Hora do speed black metal do Infernal Atröz. Os filhos do pecado são na verdade uma garotada nova que conseguem fazer um som que é a pura demonstração de como o metal oitentista soa. Letras em português, passagens do thrash e black metal se fundem, e vocais que vão do agressivo aos mais agudos da escola Sarcófago na época do "INRI". E essa eu diria que é uma das maiores influências dele, e sim, isso é um baita elogio.
Para encerrar essa cerimônia, eis que o palco é tomado pela Diabolical Funeral, e o seu black metal que é uma mensagem direta: "toda e qualquer palavra divina tem que ser destruída, Queime a Igreja e Morte ao Padre Doente". Divulgando o seu trabalho "Triunfo do Inferno", que segue a jornada da Diabolical em ser o prego na coroa do estúpido Jeová. A faixa título soa como uma marcha, um convite a se unir às tropas da Diabolical que marcham triunfantes, e sons como Queime a Igreja e A Igreja de Satanás são a epítome desse manifesto, e encerram as apresentações com honra e blasfêmia.
Ao final do evento, é impressionante que tudo tenha sido feito em uma primeira edição: a organização dos horários, os stands de vendas, as bebidas e alimentação com um preço justo, e claro, a presença do público que soube prestigiar. E isso é um ciclo que se retroalimenta e mostra a força do metal extremo no nosso estado, e também a longa vida que esperamos para o "Sombras do Sul Festival".