Dissecando EP's #60: "Desperato" (2022) - Cras

    Salve, Salve Homo Metalis! Cá estamos nós agora para fazer uma resenha.
   A banda Cras me foi apresentada na segunda edição do festival online do Underground Extremo, onde lançaram o grande videoclipe para a faixa Beta. Mano ali foi paixão a primeira audição... fiquei extremamente vislumbrado com aquele som, forte e denso, a banda busca mesclar bem suas influências na hora do processo criativo, visto que ao ouvir, podemos observar claramente sons que permeiam ali entre linhas que vão desde um heavy metal, bebendo bastante na fonte do doom metal, absorvendo coisas do metal moderno, dando um pulo no crust e hardcore, para no final entregar um sludge metal maravilhoso de se ouvir, e acrescento, de se ver também, por que os videoclipes da banda até então são magníficos.


    Vamos dissecar o EP "Desperato" (latim – Desespero), este possui um conceito amarrado em dores reais (síndrome do pânico, distúrbio do sono, aborto entre outros problemas reais que afetam nosso lado psicológico e emocional), que podem ser vividas e vivenciadas por qualquer um, a qualquer momento, e isso mais cedo ou mais tarde nos leva ao 'desespero' e nos mostra que somos frágeis. Sendo assim, cada faixa aqui apresentada trás um grito interno tão forte, como se fosse um pedido de socorro ao mesmo tempo que deixamos ir tudo aquilo que nos perturba naquele momento, que ao ser externado se transforma em letras e melodias com uma energia gigante que nos faz sentir os extremos das emoções, que vai desde o grito de desespero ao grito de alívio.
    Vamos a dissecação faixa a faixa:
    Valley Of Concrete, abre o EP e de cara já mostra o que tem por vir, uma introdução suave e crescente, que vai te deixando acostumando com aquele instrumental beirando algo de tempos ancestrais, eis que entra o peso com uma guitarra enfurecida, e uma bateria nervosa, um baixo denso, acompanhado da primeira linha de vocal já entra com um berro lindão, a música continua com linhas atenuantes mesclando o sutil à um peso fantástico, que chega a ser difícil explicar em palavras as sensações que você sente ao ouvir essa faixa, na qual você vai da leveza a ira em poucos segundos, e ao final, volta àquela atmosfera de leveza.
    Marks já começa forte com uma pegada bem metal moderno, o peso dos vocais é evidente ao mesclar os guturais berrados com graves, mostrando assim a potência do vocal da Marili, a velocidade e peso do instrumental mostra a qualidade dos músicos, o que deixa o pacote completo, aqui sinto um pouco da influência do death metal em linhas melódicas, junto ao som característico da banda.
   A velocidade em Overloaded já vai mais para linha do death/thrash metal, com aquela bateria nervosa, logo em seguida as linhas de guitarras levam a sonoridade mais para o moderno, e o baixo ao fundo vem como aquela peça ideal para fechar o quebra-cabeças, como já apresentado pela a banda, a mescla de estilos, criando uma sonoridade tão única. Como já observado o vocal externa todo esse grito, ora de socorro, ora de alívio, e trás uma energia contagiante à música que se mantêm em boa parte em um ritmo pesado.
    Em The Price of Consent podemos observar uma pitada da influência do crust, mais uma faixa bem forte, com sonoridade agressiva e veloz, destaque para linha rápidas de bateria acompanhadas pelo peso da guitarra e do baixo, porém como já de praxe a banda não se prende a padrões e do meio para o final a faixa ganha uma atmosfera densa, um ar doom chega aos ouvidos, o que te acalma de toda aquela euforia de outrora, e antes de você atingir ali o nirvana eis que uma outra super dose de adrenalina nos oferecida antes do final da faixa.


    Beta
 vem com uma introdução suave contando com trechos quase sussurrados nos vocais, com um toque sombrio, deixando a atmosfera densa, a faixa inicia acariciando os ouvidos, logo em seguida uma explosão sonora se dá com uma linha densa e pesada de guitarra e baixo acompanhada dos primeiros berros, e depois segue em uma linha crescente de ritmo denso mostrando ali influências da escola do doom metal, o que vai até o final da faixa com linhas maravilhosas de vocais e um instrumental extremamente lindo, com alternâncias magníficas, uma linha de guitarra nervosa e evidente, acompanhada por uma base do baixo denso e poderoso, e aquele toque nada suave da bateria que completa o conjunto da obra, fechando essa obra prima do metal nacional na atualidade a participação da Mayara Puertas (Torture Squad) o que deixou a obra mais que perfeita.
    Ciranda do Aborto é uma faixa bônus que é uma versão de uma música da MPB, a única música em português do EP apresenta um tema tão delicado quanto às linhas instrumentais nos primeiros minutos, porém depois fica tão forte quanto, a decisão a ser tomada em tal questão, há uma mescla mais evidente de vocais limpos com o gutural, sendo que os vocais limpos ficam por conta da Hanna Paulino (cantora amapaense, que vem se destacando no cenário nacional), o que ajuda a externar a dor de uma mãe de ter que conviver com a ausência de um filho que não viu nascer, a música passeia pela densidade e peso de algo que vai nas fontes do death metal, doom e pela leveza de algo aí da MPB.
    Dica do Barros, pegue um dia que você tenha um tempo livre, uma boa garrafa de vinho e ponha-se a ouvir esse EP por inteiro, quantas vezes forem necessárias, para que possa vivenciar a experiência real que uma das faixa tem.
    Finalizo dizendo que aqui se tem uma obra-prima do metal nacional atual, em um EP com apenas 6 faixas, mas com uma qualidade e significância de full, nota 10 seria pouco para o resultado do conjunto aqui, como em conversa com um dos membros da banda, falei que daria 1000 de pontuação geral, fácil, fácil. Já estou ansioso pelo full que está em processo de desenvolvimento, aposto que vem algo aí que vai abalar as bases do underground nacional, fincando de vez o nome da Cras no rol de grandes nomes do nosso metal nacional.
    A Cras foi fundada em 2019, encontra-se dividida entre os estados de São Paulo e Santa Catarina e é formada por Marili (vocal), Hércules Breno (baixista), Cris (baterista) e Lucas Brito (guitarrista).

TRACKLIST:
1) Valley Of Concrete
2) Marks
3) Overloaded
4) The Price of Consent
5) Beta
6) Ciranda do Aborto (bônus)

FORMAÇÃO:
Marili - vocal;
Hércules Breno - baixista;
Cris - baterista;
Lucas Brito - guitarrista.