Cobertura de eventos #62: 18° Otacílio Rock Festival - Otacílio Costa/SC (07 e 08 de março) (em tempo real)...


Salve headbangers, o dicionário Aurélio define tradição como: ato ou efeito de transmitir ou entregar; transferência, herança cultural, legado de crenças, técnicas etc. de uma geração para outra, e acredito que esse termo define muito bem o que é o Otacilio, um festival que se mantém ativo ao longo de quase duas décadas e que faz a gente ter orgulho de levar o nome Underground, sensação essa que vamos relatar ao longo do festival.

Com a pontualidade que é uma marca do festival, às 14:00 horas o festival é iniciado com a Black Soul – voltando de um hiato de 16 anos. Na verdade, a banda Helter, por imprevistos pessoais, teve que cancelar sua participação e, para não deixar o público na mão, a organização trouxe de volta para esse show a banda Black Soul, que conta nos vocais com Denilson, um dos organizadores do festival, que abriu o show dizendo que eles estavam há 16 anos sem tocar e que não lembravam mais das autorais, e por isso iriam fazer covers. E naquelas coincidências do destino, o guitarrista Guilherme, que hoje reside no exterior, se encontra no Brasil, então o melhor dos cenários para a volta da banda, e que volta gostosa de assistir.

Com aquela vibe de amigos que se reúnem e querem fazer um som, a banda foi emendando clássicos do heavy como Black Sabbath e Metallica, porém foi quando eles mostraram seu lado mais thrash que a coisa esquentou de vez: um cover muito correto de Orgamastron, seguida de Iron Fist, ( você sabe de quem.)  e aquela fase áurea em que o Metallica era uma banda de thrash metal foi representada com "For Whom the Bell Tolls" e "Creeping Death".

Denilson anuncia que vão tocar um som que não executam há mais de 20 anos, Então tivemos "Inner Self" do Sepultura  e sinceramente, já vi bandas que ensaiam com muito mais frequência errando tudo em suas escolhas, o que não foi o caso aqui. A banda puxou os primeiros circle pits e um wall of death com o público que chegava no festival e já era recebido como tem que ser: com um banho de cerveja na cara no meio do pit.

A felicidade de estar no palco é algo que só quem tem banda sabe como é. Não sei se esse foi um show único e se a banda fecha um ciclo agora no Ota, mas fato é que deixaram uma ótima impressão. Não importa se mais de 15 anos se passaram, a energia e a entrega estão ali.

Na sequência, a banda Darma, de Vacaria, Rio Grande do Sul, vem trazer a atmosfera do blues para o comecinho da tarde do festival. Eu confesso que não sou um grande conhecedor do estilo e, ao ouvir falar da banda, pensei que o palco iria ser tomado por uns tiozões que iriam mostrar uma performance aterradora. Bem, eu estava cinquenta por cento certo, porque a performance foi exatamente isso: aterradora, cheia de feeling, técnica e carisma. Mas agora pasmem: o som é de gente com décadas de estrada, mas no palco tínhamos três guris que devem ter a metade da minha idade, mas simplesmente levaram o público a uma viagem direto aos anos 70, onde jams eram algo comum.

No formato power trio, eles honraram a escola de nomes como o Cream. E aí, meus amigos, seja nas autorais, como "Runaway Train" (com direito a uma passagem de gaita), como também em um cover que virou uma jam session de "The House of the Rising Sun", do The Animals. Tudo aqui soa como o blues tem que ser, onde há espaço para experimentalismo e técnica. E isso eles esbanjam, como em "Verve Fatal". Um show à parte do baterista Matheus Prandi. Completam o trio o baixista Victor Hoffman e o guitarrista e vocalista Pedro Pizzamiglio. "The Wandering" foi a primeira música da banda e teve a honra de encerrar a apresentação, que fez o Darma ganhar mais um fã. E eu levei como tarefa de casa ouvir mais blues.

Nas últimas décadas, o metalcore foi responsável por trazer uma renovação para o heavy metal como estilo musical. Claro que existem muitos detratores do estilo, mas isso só prova que essa segregação é o que pode nos levar ao ostracismo. O Ota acerta e muito em trazer pela primeira vez para Santa Catarina a Treze Black, uma banda de Caçapava do Sul (RS), que na sua sonoridade bebe do metalcore e outros estilos  com o uso de breakdowns, vocais gritados e vocais limpos. Aqui está um ponto que pode ser o grande diferencial deles: as letras em português têm algo a dizer, como em "Fênix" e "Mal Natural". Os vocais limpos não são ruins (o que me afasta deste estilo, como no caso do Caliban), e o fato de ter passagens que equilibram momentos de pig squeal, que acenam para o deathcore, foi outro ponto que me fez apreciar a apresentação.

A banda anunciou que está para lançar novos sons esse ano e fez do Otacilio Rock Festival um laboratório para testar sons como "Nevoeiro" e "Efeito Caos". Pela recepção da audiência, objetivo alcançado.


Se você é fã de Meshuggah, tem por obrigação conhecer a próxima banda que tomou de assalto o palco do Ota 2026: Dead Jungle Sledge. Claro que essa comparação pode parecer muito limítrofe ao som deles, já que na verdade o que foi apresentado para nós é um verdadeiro quebra-cabeça musical. Os tempos quebrados e as formas como as composições ganham sentido no caos fazem deles um nome marcante no groove/ Stoner  metal ou qualquer outro estilo em que queiram encaixar a sonoridade deles. 

Fica muito nítido que eles não se importam com isso e querem apenas massacrar a audiência com um peso descomunal. Tão descomunal que uma hora as caixas de som pediram socorro e apagaram, mas problema resolvido, eles voltaram e mostraram o porquê. Mesmo com todas as adversidades sofridas, como o falecimento de um membro da banda, eles continuaram levando a sua proposta sonora imponente e marcante, como na abertura do show com "Irrational Beings"  Strain e encerrando o set com "Axis", ovacionada pela audiência ali presente durante toda a apresentação.



Esta é uma cobertura em tempo real pós-show. Continue acompanhando nosso site para a cobertura completa e, nas nossas redes sociais, os vídeos e fotos do evento.