Entrevista #44: Atropelo

Hail Headbangers!
Existem bandas que impressionam pela técnica, outras pela temática, tem aquelas que ainda que surpreendem pela agressividade sonora que apresentam. E existem bandas como a Atropelo que unem tudo o que foi citado anteriormente e provocam o caos por ondem passam. Conheça um pouco mais sobre a banda fazendo uma leitura que a seguir expressa a entrevista que realizamos como os membros.



1) Salve Atropelo! Primeiramente agradeço pela entrevista, somos uma mídia que leva o Underground no nosso nome e por isso sempre vamos apoiar o fortalecimento da cena. Para começar, poderiam nos falar um pouco dos primórdios da banda, ou seja, quando começou a se formar a Atropelo e quem deu a ideia para o nome, que combina bem com a proposta do som? 

R: Salve Underground Extremo, grande satisfação e respeito pelo trabalho que vocês vêm realizando, fortalecendo a cena metal e as bandas do underground brasileiro. A banda foi formada no início de 2004 pelo guitarrista e compositor Christiano Leli, que convidou e incentivou o vocalista Adriano Secão, com a intenção de ser a banda mais pesada que conseguíamos fazer. 


O nome Atropelo foi sugerido e batizado pelo guitarrista Christiano Leli que já tinha em mente a intenção e inspiração que a banda iria defender. Nesse momento foi composto e gravado 12 músicas inéditas, lançamos em 600 CDs cópias especiais e 100 DVDs com todas as músicas “videoclipadas” para telões, apresentadas no evento de lançamento da banda (Imagem 01). O evento contou com várias bandas consagradas da região do MS, nessa noite mostramos pela primeira vez o “Show Máquina”, que são ruídos de oficina mecânica envolvidos em células rítmicas, usando vários elementos de muitos seguimentos musicais, contando com letras inspiradas no caos urbano e social, apresentando uma linguagem metafórica de Torturas Vocais. 

Hoje o show tem 1hr e 20 mim distribuídos em 13 músicas cantadas em Português, reflexivas, pirofágicas e especialmente criadas com ritmos que fazem o público chacoalhar a cabeça e pogar ao extremo, tanto que depois dos shows nos sentimos atropelados. 

Imagem 01 – Cartaz do Show de Lançamento da banda Atropelo – Dourados/MS 


2) A banda passou por mudanças de formação que a levou a ter uma pausa. O quanto isso atrapalhou o desenvolvimento do Atropelo e como está a formação agora? 

R: Uma banda underground por mais musical e ensaiada que possa estar, sempre passa por problemas de troca de formação e não seria diferente com a gente. Após os 3 primeiros anos, quando a banda se firmou na cena da nossa região, o primeiro baterista Diego Domingues anunciou sua saída e mudou de cidade para fazer faculdade e o primeiro vocalista Adriano Secão também deixou a banda por motivos pessoais. Com isso foram convidados e testados vários músicos e em 2007 a banda ensaiou uma nova formação. Depois de 3 anos, mais uma vez, o baterista Jackson Jotaro teve que se mudar de cidade por motivos de estudo e o vocalista Erick Soneca foi promovido no trabalho e também teve que sair da banda. A partir disso o guitarrista Christiano Leli e o músico da oficina Rodolfo Leli pausaram o projeto em 2011. 

Em 2018 a banda se reuniu novamente para ensaios e com a responsabilidade de encerrar o 1º Rock in Rio Brilhante/MS, reacendendo novamente o projeto e o "Show Máquina", que foi realizado na integra nos bares especializados da região no ano de 2019. (Imagem 02) 

Imagem 02 – Cartaz Beercinho Bar - Dourados/MS 

Em 2020 a banda tem como formação atual Christiano Leli na guitarra, composição das músicas e direção do “Show Máquina”; Linghold Streck no vocal, revelação do estilo Gutural da região e pirofagista; Luizinho Catelan na bateria, músico reconhecido e consagrado pela técnica e peso nas batidas; e Diego Lopes na oficina, considerado pela sua musicalidade exótica em tocar instrumentos diferentes, percussões e máquinas de oficina mecânica de forma precisa e dinâmica. (Imagem 03). 

A banda chega à sua formação mais musical e pesada da sua história, com a entrada de músicos mais técnicos e experientes. Vem realizando um grande número de ensaios, passando por uma total reestruturação musical sem perder a essência do projeto inicial e com isso conquistando e subindo para outro nível de excelência musical. 

Imagem 03 - Formação atual: Luizinho Catelam -bateria, Linghold Streck - vocal, Diego Lopes - oficina e Christano Leli - guitarra 

Concluímos que a troca de músicos em uma banda sempre atrapalha a dinâmica musical e que necessita de novos ensaios e entrosamentos para se encaixar em um show. Mas sempre contamos com a sorte de que todos os músicos novos que se envolveram com o projeto trouxeram novas técnicas musicais e contribuições para o amadurecimento das músicas e do show em geral. Após 2 anos de ensaios regulares e uma pandemia, a banda hoje se encontra preparada para os palcos. 


3) Vocês possuem uma sonoridade bem marcante, que definem como caos metal! Gostaria que explicassem quais são as influencias diretas da banda. 

R: O caos é uma confusão primordial onde serve de apoio para a realidade observada no universo, sendo assim, a banda propõe o conceito de uma variação de uma das vertentes da música contemporânea, o 'Rock’n Roll', somando com máquinas de manutenção comuns na nossa região. Segundo Christiano Leli: “As máquinas fazem parte da minha vida, minha família trabalha com usinagem e manutenção de maquinários pesados e desde a infância eu ouço os sons da oficina do Atropelo. Algumas dessas máquinas tem o poder de destruir um material até que ele se transforme em uma peça sofisticada e útil, acredito que aí exista uma analogia com a história humana de sobrevivência e evolução científica, revelando a vivência humana natural, seus erros e suas conquistas atuais”. O Caos Metal pode ser representado pela aliança da música pesada com a desordem do cotidiano, da sociedade e da vida humana. 

Como músicos somos fãs de muitas bandas e artistas, mas vamos nomear algumas influencias pessoais e bandas preferidas. O baterista Luizinho Catelan curte Cannibal Corpse, Brutality e Morbid Angel; o vocalista Linghold Streck se inspira em Sepultura, Exodus e Havok; o oficina Diego Lopes pira em Slipknot, Rammstein e Mudvayne; e o guitarrista Christiano Leli é fã de Carcass, Gojira e Lamb of God. Sem falar das bandas da Cena Metal da nossa região do Mato Grosso do Sul que apoiamos e trabalhamos a favor: Aggresion, Katastrofe, Overdaines, Acrópole, Misbehaviour, Tonelada, Alcoholic Death, Cueio Limão, Opuesto, Pata de Cachorro, XupaKabras, Facas Voadoras, Suggilation, Haze, Zangra, Shadows of Legacy, Predominium, Nietzsche’s Hammer, Dor de Ouvido, Dxdxox, Totemtabu, Extermínio, Gods of Carnegie, Escafandro, Fatal Beast, Escravos de Jó, Diabolical Hate


4) Poderia comentar um pouco sobre o trabalho “Continuun”, como foi a gravação do mesmo e a receptividade do público de forma geral? E o que já pode nos adiantar do segundo trabalho? 

R: Em 2007 a banda ensaiou uma nova formação, que trouxe inúmeras melhorias técnicas para as músicas do primeiro projeto e regravamos o primeiro disco. O segundo vocalista trouxe o grave que faltava para os vocais e o segundo baterista evoluiu a pegada da bateria e foram adicionadas 2 músicas inéditas no disco, sendo nomeado de "Continuun" (Imagem 04). O disco foi lançado com iniciais 300 cópias especiais com encarte transparente dobrado e disco timbrado, tendo uma ótima receptividade na época e se tornando referência da banda entrando no catalogo do site Palco Mp3. 



Imagem 04 – Encarte dobrável do CD "Continuun" 

Agora nesse ano de 2020, com a pandemia, nos concentramos em ensaiar e criar novas músicas para o registro do segundo disco e contamos já com 9 músicas inéditas, algumas ensaiadas com todos os novos ruídos de oficina e outras em andamento, acreditamos que chegaremos em 12 faixas para encerrar a obra. No meio do ano a música Fronteira Humana foi lançada no programa de rádio regional Metal Sem Frescura (Imagem 05). Estamos empolgados e com muita força de vontade para ensaios, eventos undergrounds e shows. 


Imagem 05 – Encarte do Lançamento da música Fronteira Humana 

5) As letras do Atropelo possuem uma mensagem bem clara de inconformismo e revolta. Quem são os responsáveis pela temática da banda e qual a importância de optar pelo português para divulgar suas opiniões? 

R: As letras e composições são de responsabilidade do guitarrista Christiano Leli, que com muito critério escolhe os assuntos que vem de encontro com a atualidade científica e social humana. Criticamos, apontamos e comemoramos as mais diversas formas que o caos do mundo interfere na vida material e psicológica. Não falamos de religiões, cultos e nem adoramos nenhum ser mitológico, celestial ou enterrado em nossas letras, simplesmente retratamos as mazelas e conquistas alcançadas pelo registro animal humano. 

E a língua portuguesa é perfeita para o som do Atropelo, temos orgulho de nossas letras serem feitas para nós mesmos, somos adeptos das 'torturas vocais' que o português pode nos proporcionar. A música Ministério da Saúde tem uma estrofe cantada em espanhol, onde introduz um aviso dos cigarros importados do Paraguai tão frequentes em nossa região. Mas em geral, não sabemos fazer músicas em outra língua. 


6) Ainda não tive a chance de presenciar um show da Atropelo, mas pelo que podemos observar nos vídeos da banda, vocês possuem um grande cuidado com a produção de palco. Como descreveria a sensação que vocês querem despertar no público ao ver um show da Atropelo

R: Com experiência em diversas modalidades das artes, levamos aos palcos uma junção de muitas linguagens em um espetáculo que conta com a palavra, o teatro, artes plásticas, visuais e gráficas, além da música em si, o rock pesado. Na produção do que chamamos de “ruídos em células rítmicas”, utilizamos os instrumentos tradicionais e os artifícios mecânicos como lixadeira, marreta, máquina de solda, taco, correntes, sirenes e outros de maneira musical, onde tudo se encaixa no conceitual “Show Máquina”. 

Nós criamos músicas com a intenção que o público sinta a pegada rítmica e harmônica sem complexidades musicais e limpas, facilitando o chacoalhar de cabeças e o pogar que é tão característico nos shows de metal. Sempre levamos e distribuímos nos shows o programa contendo as letras e o repertório com a sequência das máquinas da oficina (Imagem 06). Com isso, sentimos que o público entende e percebe o andamento do show. 

Imagem 06 – Verso do Programa – Repertório e Oficina 


7) Vocês tiveram problemas com shows interrompidos pela polícia, que alegou que a banda era muito pesada e tal! Poderia nos contar essa história? Foi algo mais de censura e preconceito por parte da força policial? 

R: Sim, já tivemos muitos problemas desse tipo e parecidos. Vamos citar Rio Brilhante/MS, nas duas oportunidades em que nos apresentamos fomos impedidos de terminar o show. Na primeira vez, em uma festa integrada, dessas onde toda a comunidade da cidade participa, convocaram o Atropelo para tocar e no meio de vários estilos de bandas e artistas subimos no palco com tudo. Na primeira música já percebemos o espanto da população local, na segunda música onde o vocalista cospe fogo em uma 'pirofagia' ensaiada e controlada, subiram no palco o dono do som e um bombeiro gritando apavorados. Não chegamos na música 6 das 12 que tocaríamos na ocasião, pagaram nosso cache e pediram para parar porque o som era brutal demais e estava assuntado a comunidade presente. 

Na segunda vez, na mesma cidade, encerrando o Festival Rock in Rio Brilhante, depois de um dia inteiro com bandas de vários estilos de rock tocando em uma superestrutura, entra o Atropelo para encerrar a noite, notavelmente o público estava fervendo e se divertindo a ponto de preocupar as autoridades no local, e foi quando na música Guerra, décima música do show, onde usamos um instrumento exótico chamado de “canhão”, que conforme o andamento da música explode criando um enorme barulho de tiro que cobre o som da banda e cria uma ponte musical para entrada do próximo ciclo musical, na música se usa o canhão 9 vezes, depois do quarto tiro entra correndo no palco o organizador do evento rogando a todos os deuses para parar o show, todos os camburões de polícia acenderam suas luzes giratórias, dispersaram o público e acabaram com o show, pelo simples fato de não conhecerem o instrumento que é uma adaptação de uma brincadeira de infância criada com canos de PVC e abastecido com um pouco de álcool, tivemos que mostrar para eles depois. Essas histórias de censura reforçam, de fato, o preconceito que a banda sofre por tentar apresentar um show pesado com 'pirofagia' e máquinas. Na cidade em questão nunca conseguimos terminar um show. 


8) Em nome do Underground Extremo queremos agradecer sua participação nessa entrevista! Gostaria de deixar um recado para os leitores do site? O espaço é seu!!! 

R: É uma honra para nós fazer parte do 'hall' das bandas do editorial do Underground Extremo, agradeço as ótimas perguntas sugeridas, que deram oportunidade para contar as fases da história da banda e algumas ideias a mais. Aos leitores mandamos um salve e agradecemos o apoio, porque acredito que todos sabemos que tudo isso é feito de forma voluntária e sincera. Uma banda de caos metal como o Atropelo que nasceu no interior do interior do Brasil tem poucas chances de tocar para públicos especializados e por isso há muitos anos criamos eventos para fazer a manutenção do rock pesado regional e abrir espaço para as bandas fazerem intercâmbios entre cidades da região. Criando e fomentando públicos. Fazemos por nós mesmos e para nós mesmos. Continuem pesados. Obrigado.

Revisado e editado por Carina Langa.