A misoginia no Metal Extremo

Várias foram as pautas pensadas para não deixar o Dia Internacional da Mulher passar em branco. Em uma simples pesquisa na internet você encontra exemplos como: - "Conheça aqui bandas com mulheres na formação!" (Como se fosse algo super exótico), ou pior: - "Lista das beldades do Metal!" Enfim, nós do Underground Extremo nesses cinco anos, já divulgamos mais de 600 bandas mundo afora e não acreditamos que o fato de ter uma ou várias mulheres na formação seja algo para ser visto como um diferencial ou apelativo, valorizamos o talento e a boa música, isso que é importante para nós. 


Por isso pensamos em um tema provocativo. O Metal indo nas suas raias mais extremas, ainda é, (ou sempre foi) sexista? Nossa intenção aqui não é lacrar (como ficou padrão agora chamar qualquer texto que se discute algo), ou caçar 'likes', na verdade, pode até acontecer o contrário, e muita gente deixar de seguir a página sem mesmo ler o texto, mas, o objetivo é refletir: afinal de contas, na cena underground temos várias bandas que apelam para o lado, digamos, mais picante. Até aí tudo bem, é uma escolha de temática da banda, agora quando isso cai para o lado do bizarro e do humilhante, será que não merece uma debate? Essa, então é nossa idéia.

Não tenho muito contato com o 'pornogrind', minhas bandas favoritas são mais puxadas para o 'goregrind' e o 'splatter' e até tais bandas já apresentam tal visão mais erótica, como o Rompeprop e Kraanium. Porém numa busca rápida no Google, você encontra centenas de capas de bandas do estilo, bem e aí, você tira suas próprias conclusões.

Não postamos aqui, mas caso queira buscar, procure pelas capas do Pito de Plástico, Torso Fuck entre muitas outras. Chocar e criar repulsa é uma das características do Metal, um estilo que tem dentro do seu DNA a contestação da moral, e o 'gore' sempre foi utilizado justamente para isso, basta analisar os grandiosos trabalhos "Reek of Putrefaction" e "Symphonies of Sickness" do Carcass, que é uma das minhas bandas favoritas. Entretanto, ao momento que ocorre um flerte maior com situações de humilhação e de exploração das mulheres, fica muito difícil não associar esses trabalhos a pensamentos mais de 'Incell' ou machistas, que vêem a mulher como um objeto a ser explorado, ridicularizado e humilhado.


Vamos citar aqui o caso de Connor Betts, atirador que matou nove pessoas com uma espingarda de assalto em Dayton, Ohio. Ele tinha uma banda de 'Porngrind' chamada de Menstrual Munchies, claro que não é todo músico de 'porngrind' que irá ser um doente psicopata, e também dentro do estilo a qual o 'porngrind' tem origem, não existe um consenso, como o caso da banda de 'goregrind' Haggus que cita:

"Substituir talento por imagens apelativas e títulos de músicas misóginos é simplesmente patético. Leve essa merda de volta ao porão da sua mãe e vá se foder! Porno-gore é para virgens…!"

Porém... Não estaríamos sendo contraditórios ao dizer o que tal banda pode ou não usar como temática? Por isso, entramos em contato com uma galera que tem algo a dizer sobre esse assunto e o compilado dessas opiniões você encontra na sequência:

Flashbanger Mídia 


"O choque pelo choque é sem sentido, ainda mais quando ele reforça um estigma de uma cultura dominante, como é a cultura patriarcal. O metal nasceu subversivo e não um promotor do status quo. O estigma de que a mulher é apenas seu órgão sexual, uma "whore" ou uma "slut", termos e temáticas extremamente comuns nas letras e nomes de bandas de pornogrind, fortalecem uma cultura que degrada mulheres, endossa a cultura de estupro e o feminicídio. Quer chocar? Beleza, então choque a família tradicional, viole os valores tradicionais, subverta a cultura dominante. Não diminua a luta das minorias que já são massacradas pelas cultura majoritária, não estimule a violência contra as mulheres. Lute ao lado delas e por elas, você, headbanger subversivo, cabeludo e anti-cristão. Não basta não ser machista. Tem que ser anti-machista. Se você gosta do seu amigo que paga de machão, eduque-o para ser uma pessoa melhor e mais consciente. A cena, ainda extremamente dominada por homens e profundamente machista, precisa entender que é importante criar um espaço seguro e acolhedor para as mulheres. Uma das coisas que podemos fazer, por exemplo, é boicotar e expor bandas misóginas ou de conhecidos agressores."


Hugo Roberto vocalista do Crotch Rot 


"A música extrema na sua concepção, em linhas gerais, se apropriou das referências escatológicas e do puro suco da maldade, onde o ódio é um recurso estético bastante explorado! A indústria pornográfica também se vale da violência enquanto mercadoria! Daí na cabeça do redbenze contemporâneo, amparado pelo recrudescimento do fascismo tupiniquim e um imaginário de humilhação como forma de entretenimento, misoginia é tag do porntube! Inclusive essa banalização da misoginia tem sido pretexto de muita banda retratar em suas letras os órgão sexuais masculinos enquanto instrumentos de submissão à serviço da virilidade redbenze! É muita imaturidade, numa conjuntura caótica onde os índices de feminicídio são alarmantes nos noticiários. A falta de sensibilidade se justifica por diversos fatores ao meu ver, mas a embriaguez de sucesso do culto ao politicamente incorreto é a base do déficit cognitivo do metaleiro conservador. E devia ser obrigação moral de todo headbenger que anseia por justiça social passar o rodo nos emocionados de plantão."


Aqui no Underground Extremo sempre iremos apoiar as bandas de Metal Extremo, porém, reforçamos que o Underground não é lugar para preconceitos, racismos e discursos de ódio. Aprendam com o Napalm Death, banda que defende que a violência fique no som! Se você não consegue entender isso, o Heavy Metal não é para você.

Revisado por Carina Langa.





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